05 junho 2005

Textos de Emma Restall Orr

Quem é Emma "Bobcat" Restall Orr?

Líder adjunta da British Druid Order (Ordem Druídica Britânica, ou simplesmente BDO), Emma Restall Orr (OU Bobcat, como é mais conhecida) é sacerdotisa, escritora, poeta e cantora. Como autora, escreveu os importantes Princípios do Druidismo- Hi-Brasil Editora, 'Spirits of the Sacred Grove' (Espíritos do Bosque Sagrado) e 'Ritual: A Guide To Life, Love And Inspiration' (Ritual: Um Guia para a Vida, o Amor e a Inspiração - a ser lançado pela Hi-Brasil Editora no mês de Agsto de 2002). Seu último livro, "Druid Priestess" (Sacerdotisa Druida) é uma reedição de 'Spirits of the Sacred Grove'. Em março de 2001, Bobcat apareceu no programa GLOBO REPÓRTER, fechando um programa sobre o movimento Neo-pagão. Indubitavelmente, foi o chamado "fecho de ouro" para o programa, que deixou uma impressão bastante positiva sobre o que é o paganismo em geral, e o Druidismo em particular. Desde então, vem recebendo contatos constantes de pagãos brasileiros, aos quais ela busca responder sempre que possível, diretamente ou através de Claudio Crow Quintino, seu representante no Brasil.

Druidismo: Inspiração de Ontem e de Hoje

PARTE 1 - Imagens do Druidismo

Um jovem, de olhos fechados, senta-se sobre as raízes cinzentas de uma velha faia. Sua cabeça está levemente inclinada para o lado, balançando ao ritmo que ele parece ouvir no interior. Ele franze a testa, atento, inclinando-se um pouco para a frente, como que buscando ouvir com maior clareza as sutilezas de uma melodia, e seus lábios formam um sorriso. Entreabrindo seus olhos, ele mete a mão nos bolsos de sua jaqueta, movendo seus pés alguns centímetros, suas botas de caminhada se enterrando levemente no solo enlameado, e ele leva sua flauta metálica à boca, fechando novamente os olhos e respirando como se fosse suspirar. Ele começa a tocar, e enquanto as notas se erguem sob o brilho suave do sol de outono uma outra folha seca vem caindo, quase sem pelo, levada pela brisa. Uma imagem de um Druida. Permita-me o leitor que lhe mostre outra, de um fogo que arde, ouro alaranjado brilhando numa grande bandeja de ferro preto, sob o negro céu noturno. As chamas custam a se erguer por entre o emaranhado de ramos de freixo, uma língua amarela de fogo saindo da madeira como se estivesse brincando de esconder, enquanto três mulheres se movem em silêncio, seus corpos em movimento, sinuosos, depois tesos, e novamente flutuando como se o vento frio fosse água tépida. Ao redor delas, vêm-se pedras; algumas caídas, outras erguidas, cada uma delas assistindo, ouvindo as mulheres, o canto baixo a bocas fechadas, a melodia que brota de suas almas, enquanto invocam através de sua reverência a mãe escura da criação, sua deusa do inverno. Num monte cerimonial, a algumas milhas de distância, poucas horas após o romper da aurora, temos um homem enrolado numa túnica de pele de lobo e úmida com o orvalho matinal. Seus olhos bem abertos, seus braços erguidos aos céus, ele solitariamente revive a dor de um ancestral há muito morto. Em silêncio, ele pede em meio à sua excitação por alguma orientação divina, enquanto as palavras jorram de sua boca. Um gavião paira sobre o vale abaixo, com seu olhar atento, sustentado pelo vento. Corvos cortam os ares sob o céu cinza-pálido. A história deve ser contada, não importa quem esteja ouvindo. À luz do dia, antes do trabalho, uma mulher vai a seu jardim, seus pés pisando as folhas secas caídas sobre a grama. Seus dedos acariciam a folhagem do teixo, demonstrando sua afeição, enquanto ela se dirige para seu altar. Ela traz um buquê de flores vermelhas nas mãos. Quando se aproxima, ela se curva em saudação: "Salve, Espíritos", ela murmura. Sua testa franze levemente, sem que ela perceba. Depositando os botões sobre a antiga laje de granito, a donzela das flores sorri, sua face de pedra ajustando o foco para melhor usar a energia diante dela. A mulher sente. Por um instante, ela fecha seus olhos, e encaminha suas orações. Em seu caminho de volta à casa, ela apanha uma amora da sebe, apertando-o entre seus dedos, e levando o sumo carmim a seus lábios sorridentes. Quatro imagens do Druidismo. Nenhuma delas semelhante à imagem pré-concebida de homens trajando túnicas brancas, barbados, com cajados entalhados e uma foice dourada presa ao cinto. Na verdade, essa imagem do Druida trajando branco não possui mais do que duzentos anos, e foi criada num período onde a tradição era vista com renovado interesse, quando uma figura da literatura clássica de dois milênios antes foi escolhida entre tantas outras: a descrição de Plínio de um Druida colhendo o visgo do carvalho sagrado. Se tivessem escolhido Estrabo, o estereótipo poderia ser bem diferente, mas seus Druidas - trajando vermelho, com ornamentos dourados - talvez não apresentassem a dignidade e a nobreza que se buscava. Com o retorno dos viajantes ingleses, trazendo estórias das culturas primitivas das Américas e da África, os interessados pela herança dos Celtas tropeçavam em si mesmo em busca de fatos e provas; do tecido formado pelo cristianismo não-conformista e pelo antiquarianismo (a arqueologia inicial) surge uma nova espécie de Druidismo. Era patriarcal e hierárquico, um sistema de aprendizado para a sociedade masculina letrada, e também monoteísta, pois apresentava os Druidas cultuando o sol como a "mais elevada Luz", um precursor do Cristo. Os ensinamentos desses Druidas ainda exerce influência sobre certas Ordens e grupos atualmente. Uma Ordem chegou a usar barbas falsas até o início do século XX, as quais provavelmente estão penduradas em um armário de seus escritórios. Essa imagem ainda está bastante forte em nossa cultura. Porém, de modo geral, o Druidismo praticado hoje em dia é substancialmente diferente daquele surgido do resgate ocorrido no século XVIII. Apesar de ainda existirem muitos na tradição que ainda confeccionam suas próprias vestes brancas (em sua maioria de tecidos naturais sem tingimento), existem muitos outros que trajam túnicas verdes, azuis, vermelhas e roxas, e até mesmo pretas, descobrindo nas cores as ligações com o meio ambiente no qual vivem. Folgo em informar que as barbas hoje estão longe de serem compulsórias... A imagem arquetípica criada no período do reavivar do interesse pela tradição, contudo, ainda tem seu papel, se bem que somente se olharmos para quem está por baixo das túnicas. Pois eis ali um homem de idade avançada, gentil e sábio, seus olhos reluzentes de vida, e até mesmo de troça - o brilho do Conhecimento. Fragilizado pela idade avançada e por sua extraordinária experiência tanto de dor quanto de poder concedido, pelos anos de ver o interior, ele a um mesmo tempo vulneravelmente humano e totalmente invulnerável, graças a sua consciência do Espírito. Sem dúvida, não importa se ele é o velho mago britânico Merlin, o mítico bardo Taliesin ou o irlandês Amergin, ou ainda o Gandalf de Tolkien ou o Panoramix dos quadrinhos franceses, esta é a figura responsável por atrair tantos para esta Tradição. Mas que Tradição?

PARTE 2 - Awen - A Inspiração Divina

Enquanto os historiadores costumavam dizer que os Druidas eram os sacerdotes dos povos Celtas, a antiga raça Celta era também uma criação do período de Renovação, provocado por ideais políticos ingleses e por ideais românticos num período no qual tanto a Escócia quanto a Irlanda lutavam para se desvencilhar do controle britânico. Atualmente é mais claramente aceito e compreendido o fato de que os europeus da Idade do Ferro não possuíam uma cultura homogênea, e que jamais houveram invasões desses ditos Celtas; ao invés disso, o que se espalhou pela Europa foi a tecnologia do trabalho em ferro e as vantagens e benefícios associados. Os povos encontrados na Grã Bretanha pelos historiadores e escritores romanos há dois mil anos realmente possuíam uma espiritualidade muito clara e seus sacerdotes eram conhecidos como Druidas. Há quanto tempo esses sacerdotes eram conhecidos como "Druidas" é assunto para a evolução lingüística, e atualmente, para a tradição, é um tanto irrelevante. Mais importante é dizer que Júlio César, o único escritor a ter encontrado um Druida pessoalmente, nos diz que essa Tradição tem origem na Grã Bretanha. O Druidismo é uma espiritualidade natural das Ilhas Britânicas. Como qualquer espiritualidade nativa que é profundamente arraigada na terra, suas bases são a própria Terra e os Ancestrais, através dos quais honramos as forças da Natureza. Ao honrar a Terra, o solo que nos alimenta, o sol que nos dá luz e calor, a fonte de nossa água, as plantas e os animais, honramos nosso mundo externo. Ao honrar nos ancestrais e todos os que nos tornaram o que somos, honramos nosso meio-ambiente interior. É esta teia de temas que confere às tradições pagãs muito de sua força. Toda tradição local evolui de acordo com as cores e texturas do meio em que se desenvolve. Assim, se por um lado existem semelhanças entre as espiritualidades ancestrais dos índios americanos, Aborígenes, Huna, Maia, Shinto, Maori e outras, por outro elas diferem de modo determinante por conta do clima e da paisagem. O Druidismo surgiu das rochas, das florestas e da chuva da Grã-Bretanha, e sua própria natureza está envolta pela beleza, poder e lendas que envolvem a Grã-Bretanha desde tempos imemoriáveis. O Druidismo é a prática de se honrar a força vital enquanto ela floresce, vive, perece e gera vida novamente nestas terras. Mas o fluxo de energia vital está sempre em constante mutação, e isto fica especialmente óbvio em uma ilha de clima temperado. Os botões da primavera se abrem, macios sob a chuva fria, alongando-se no verão antes de adotar a coloração dourada sob as luas da colheita, para então liberar seus grãos e dançar livremente ao sabor dos ventos frios do inverno. É a partir desta compreensão da vida como um rio que flui que recebemos o cerne da prática druídica: Awen. Esta antiga palavra galesa, que literalmente significa "Espírito Flutuante", é compreendida como a Inspiração divina e é justamente essa busca pela Inspiração que é parte tão importante da tradição. Awen é o poder, a água do fonte sagrado, ou o leite da Deusa Mãe, encontrado no Santo Graal. Awen é a Inspiração líquida e a essência de todo o conhecimento que era (ou é) fervido no caldeirão dos deuses ancestrais, os caldeirões do Renascimento.Se a salvação pode ser vista, talvez de modo simplista, como a busca definitiva do cristianismo, então a Inspiração é a busca do Druidismo. Por sermos animistas, nós entendemos que toda a criação possui um espírito, e a matéria e o mundo físico são a criatividade desse espírito. O Druida sabe que é nesta relação, de espírito para espírito, que a Inspiração é encontrada. Ao sentar-se no topo de uma escarpa, observando o sol a se por no oceano, nosso espírito reconhece o poder e a beleza essenciais que formam o espírito, e então ele recebe a Inspiração. Ao segurar uma pedra que cintila com cristais, tocamos e somos tocados pelo espírito da pedra, de sua natureza, de sua história. Ao sentir a energia das árvores na floresta, a vitalidade das sementes que transplantamos na primavera, a força do cavalo que responde à nossa inclinação e muda de direção, ao sentir os véus prateados da lua sobre nossa pele nua, recebemos a Inspiração. Quando reconhecemos o espírito de algum aspecto da criação - seja um elemental, uma planta, um animal, uma pedra ou um humano - recebemos a oportunidade de conhecer nosso próprio espírito, de responder a partir desse nosso espírito, e é esta consciência que nos dá o poder associado ao velho druida arquetípico: a mistura de vulnerabilidade e invulnerabilidade. Pois no Druidismo não existe o desejo de transcender a realidade. O Druida explora a suavidade e a beleza da carne e do sangue, desfrutando de seu potencial, expressando sua criatividade através do mundo físico e da matéria, descobrindo a beleza do mundo a sua volta, sempre ciente de sua impermanência e seu estado de constante mutação, sempre ciente da energia espiritual que é eterna e invulnerável. Quando o espírito toca o espírito, onde há comunhão nesse nível e a energia vital é trocada, ali flui o Awen. É como o relâmpago que irrompe entre a terra e o céu, entre os olhos dos amantes. Mas aspirar a beleza da Inspiração não é o bastante. É responsabilidade de um Druida assegurar que essa energia continue a fluir, de espírito para espírito, pois a energia retida no corpo ou na alma estagna e incha na forma de doença ou vaidade. Dessa forma, a Inspiração deve ser manifesta, a energia inalada deve ser exalada e isto ocorre através da criatividade do Druida.

PARTE 3 - O Moderno Druidismo: da Grã-Bretanha para o Mundo

Nas práticas atuais, existem três facetas principais na Tradição: a Bárdica, a dos Ovates e a Druídica. Cada uma delas possui um foco diferente na busca pela inspiração e na expressão da criatividade. A arte do Bardo é desenvolvida através da habilidade de realmente escutar, da descoberta das lendas e canções, das histórias e mitologias da terra e dos ancestrais, da cultura na qual ele vive. Seu poder é a magia das palavras, dos sons e da música, e ele narra as estórias das pedras, da terra e das pessoas, emocionando, identificando, alegrando; enfim, inspirando aqueles que o escutam. A arte do Ovate é aprendida através das habilidades da visão cristalina. Eles são os filósofos da natureza, e enxergam os padrões da vida e da morte que permeiam tudo, usando seu conhecimento e sua criatividade através da cura, e facilitando as mudanças. O Druida, tendo aprendido as artes de Bardo e Ovate, caminha entre os mundos. Ele é um construtor de pontes, algumas das quais podem ser usadas por outras pessoas, outras são feitas somente para ele. Ele intermedia os grupos como conselheiro, pacificador e juiz; na Grã-Bretanha pré-romana, os Druidas eram os juizes das tribos; atualmente, os Druidas geralmente operam em áreas de conflito. Como professores, eles estabelecem a conexão entre o conhecimento e a ignorância; como sacerdotes, eles conectam os deuses ao povo. Contudo, o Druidismo não é propriamente uma religião. É uma filosofia espiritual, uma percepção e um modo de vida, embasado na reverência e no respeito pela terra e pelos ancestrais, pelos ciclos de vida, inspiração e criatividade. Na prática, isto quer dizer que, dentro da Tradição, existem pessoas que buscam relações com diferentes deuses e conceitos de deidade, desde os que são filosoficamente monoteístas, passando pelos panteístas e chegando aos perfeitos politeístas. É uma Tradição que permite a existência de cristãos em seu seio, bem como os que honram deuses como as britânicas Rhiannon e Cerridwen, os irlandeses Brighid, Dagda e Lugh, ou deuses saxões, como Woden ou Freyja, ou ainda os dos panteões clássico ou nórdico. Num encontro de meu Grove (o termo coletivo para um encontro de Druidas) celebrando o festival do começo do verão no Dia de Maio, de um total de 45 pessoas 6 eram cristãos, incluindo-se um padre da Igreja Anglicana, um era muçulmano, alguns budistas, outro tanto de wiccanos e Bruxos Tradicionais, em conjunto com outros que se designam somente como Druidas; o ponto mais importante é que não se tratava de um encontro ecumênico; era, simplesmente, Druidismo. Como uma tradição baseada na inspiração, na terra e na ancestralidade, e por ser uma tradição oral, como a maioria das espiritualidades onde os textos sagrados são a paisagem onde vivemos, não surpreende que o Druidismo seja imensamente diverso em suas práticas. As palavras que eu escrevo aqui são minha própria experiência e perspectiva, como sacerdotisa Druida, mentora, ritualista e escritora. Como já mencionei em artigo anterior, existem Ordens Druídicas que ainda buscam sua inspiração nos métodos do revivalismo druídico do Século XVIII, existindo ainda ordens exclusivamente masculinas e outras totalmente cristãs. Existem outros grupos, Groves e Ordens que se inspiram na literatura medieval, sua poesia e mitologia, ou sua expressão tardia, as lendas e baladas folclóricas. Outras mais, recuam ainda mais no tempo, indo encontrar inspiração nas culturas saxã ou romano-britânica, ou ainda na Grã-Bretanha pré-romana, nas eras em que foram erguidos os círculos de pedras e os montes sepulcrais de nossos ancestrais. A prática de cada um desses indivíduos e grupos é moldada e colorida pela fonte de sua inspiração, tanto em termos de época quanto de localização, bem como pelas características dos deuses que eles reverenciam, a natureza da paisagem onde eles vivem e trabalham, e sua ancestralidade. As três imagens do druida geralmente retratadas na mídia mostram bem esta diversidade, ainda que nem sempre de forma coerente, por conta das limitações de tempo e doutrinas dos meios de comunicação. A pequena mas forte ordem do século XVIII, vista em seus rituais serenos em Stonehenge ou Primrose Hill, em Londres, com suas impecáveis vestes e wimples (capuzes) brancos forma uma dessas imagens. Os hippies com nomes extravagantes, protestando ruidosamente ao lado das cercas de Stonehenge são um pequeno grupo com uma energia totalmente diferente, um resquício do festival aberto banido há dez anos por problemas com drogas e violência. As outras Ordens principais da Tradição atual possuem duas áreas bem diferentes de ação. Uma é a Ordem dos homens, que pratica muitos trabalhos de caridade, possui uma longa e bem documentada história e conexões com a Maçonaria e a igreja cristã. O outra é formada por uma série de Ordens, pequenas e grandes, que celebram muito do que eu falei; uma filosofia espiritual de reverência, inspiração e criatividade. De tempos em tempos, imagens de pessoas como eu e membros da Order of Bards, Ovates and Druids são apresentadas na mídia, oferecendo uma nova imagem da tradição. Tendo encontrado o caminho para o Druidismo através de imagens exibidas na mídia, livros descobertos e devorados, trechos de conversas e pistas seguidas, a maioria das pessoas que chega até nós expressa grande surpresa ao sentir-se voltando para casa, encontrando um sentimento de pertencer espiritualmente a um grupo. O Druidismo, a tradição nativa da Grã-Bretanha e da Irlanda, oferece uma espiritualidade que parece ser extraordinariamente natural às pessoas que vivem nestas ilhas ou cujos ancestrais tenham vivido aqui, e vem conquistando também muitos seguidores em outras terras, distantes como o Brasil. O Druidismo prova, desta forma, seu extraordinário poder de cura e de fortalecimento, oferecendo oportunidades para que aceitemos os abusos dos nossos antepassados, para que renovemos o potencial criativo, de auto-expressão e de verdades espirituais, para que nos reconectemos à terra e à natureza, provando de sua nutrição inerente. Sua linguagem é a das florestas decíduas, dos antigos carvalhos, dos prados tingidos pela urze, pelos campos de relva salpicados por botões-de-ouro e margaridas, dos longos e escuros invernos que penetram nos ossos, do riso e da dança das quentes noites de maio. Seu caminho foi trilhado por muitos milhares de anos por aqueles que encontraram inspiração na beleza e na fertilidade destas terras, que encontraram a energia da fúria ao lidar com os seus reis, padres e invasores, que encontraram o poder do amor, da morte e do renascimento sob seus céus nublados. Uma tradição de raízes verdadeiramente antigas, que evolui a cada raiar do dia, a cada nova lenda narrada.

Druidismo - Raízes e Mudanças

Parte I: Raízes do Druidismo

A expressão mais comum utilizada pelos que travam seus primeiros contatos com o Druidismo é a de que chegaram a um lugar onde se sentem em casa. Geralmente após longas buscas, através de jornadas que podem tê-los levado por caminhos inesperados, eles se deparam com uma filosofia que lhes parece completamente natural. Mas o que no Druidismo faz com que tantas pessoas vivenciem esse mesmo sentimento de aconchego? Ao contrário do que muitos pensam (ou querem que acreditemos), o Druidismo é uma espiritualidade profundamente instintiva. Fundamentada na reverência, no respeito e na aceitação dos poderes da Natureza, o Druidismo nos leva a viver em harmonia com os ciclos e espirais do mundo natural - tanto o que nos rodeia quanto o que existe em nosso interior. Em contato com as marés e vazantes da vida, aprendemos a viver de acordo com a corrente, ao invés de lutar contra ela. Por termos total consciência das estações do ano, das marés e lunações, do surgimento e decadência da vida, nós aprendemos a compreender melhor as oscilações de nossos próprios corpos, compreendemos o que é viver e morrer, o que pedem nossos hormônios, nossas emoções, nossos desejos e nossos temores; isto nos leva a encontrar um modo de ser a um tempo mais efetivo e mais pacífico. O Druidismo é uma espiritualidade que celebra a simplicidade da existência - o canto das aves, o rugir das ondas, o voar das borboletas. O Druidismo nos leva a encontrar a beleza e a inspiração no mundo que vemos, ouvimos, cheiramos e sentimos. Para muitos druidas, este é um ponto-chave, um dogma positivo: não há nada em que acreditar. Ao contrário das demais religiões, que exigem uma fé cega em deidades, o Druidismo nos ensina somente o valor das idéias e o maravilhamento da experiência. Toda a história e a pré-história, remontando aos primórdios do tempo, não passam de uma gloriosa mescla de lendas contadas por nossos ancestrais e nossa comunidade - lendas que mudam continuamente com o passar das eras ("quem conta um conto aumenta um ponto"...). Algumas lendas nos fazem parar e ouvir, algumas nos levam a sonhar, algumas nos trazem riso ou lágrimas, provocam raiva ou mudança. Todas elas, contudo, existem para inspirar nossa visão - e não para limitá-la. Essa é também a história do druidismo: não precisamos crer que o passado é composto de fatos e somente fatos: nós o estudamos para encontrar a inspiração que nos transmite a sabedoria necessária para nossas ações presentes. Tampouco precisamos crer em deuses. Pois os deuses são simplesmente as forças da natureza - as forças no mundo que nos circunda e que não podemos mudar. Os deuses são os poderes do vento e do oceano, da tempestade e da montanha, da noite, da morte, da fertilidade, do amor e da luz solar - energias que podemos sentir e ver à nossa volta. Não precisamos dar um sexo ou uma forma humana a esses deuses, se bem que muitos druidas o façam para facilitar sua relação com essas forças. Essa é a natureza humana: nós atribuímos gênero a tudo - até mesmo a carros e navios... Os deuses ancestrais, que chegam até nós através das antigas lendas, são simplesmente forças da natureza que viajaram através do tempo e do espaço a bordo dos corações de nossos ancestrais. A reverência e o respeito pelos espíritos da natureza e de nossos ancestrais formam uma parte fundamental da tradição druídica, conferindo-lhe uma base animista. Algumas pessoas possuem uma capacidade visual que lhes permite ver duendes, elementais e os mortos; contudo, muitas outras pessoas não são capazes disso. Contudo, não lhes é pedido para que acreditem que tais espíritos existem. Em vez disso, o Druidismo ensina a honrar a criatividade que forma o mundo que vemos, e também a honrar a força através da qual essa criatividade flui: essa força é a própria vida. Dessa forma, a tradição druídica engloba as visões da ciência e da razão, ao mesmo tempo em que permite a existência daquilo que ainda não percebemos ou compreendemos - as profundidades mágicas da vida que possibilitam a magia e os milagres. Se por um lado nós druidas contemplamos as estrelas, suspirando, por outro nossos pés estão firmemente apoiados sobre o solo. Foi o conquistador romano Júlio César que escreveu que a religião dos druidas originou-se na Grã-Bretanha. Alguns questionam a veracidade deste relato, enquanto que outros o aceitam como viável; seja como for, a filosofia espiritual da Grã-Bretanha pré-romana existia numa grande área da Europa da Idade do Ferro. Em sua forma mais básica, era simplesmente a espiritualidade nativa voltada para a natureza, no contexto daquela paisagem cultural e ambiental. Isolado entre religiões e preservado em áreas tribais, o druidismo certamente possuía variações sutis mas significativas de lugar para lugar. Contudo, durante os 500 anos que antecederam a era cristã, os valores mais elevados do druidismo começaram a se espalhar pelo continente, graças à intensificação do comércio, das migrações e da facilidade de transporte. Quem ao certo sabe onde ele se originou? Como um grande rio, como o Amazonas das belas terras brasileiras, o druidismo possui nascentes em centenas de vales e montanhas.

Parte II: O rio que nos leva para casa

Os Pheryllt – os alquimistas da tradição druídica – são tidos como os primeiros a produzir um fogo quente o bastante para derreter o ferro, entre os bosques de carvalho e as colinas do norte do País de Gales. Para muitos, esse foi o fator decisivo para que a Europa deixasse a Idade do Bronze para ingressar na Idade do Ferro – uma era tecnológica que permitia as viagens e o comércio, uma era atualmente conhecida como a antiga cultura celta. Se isso tem um que de verdadeiro ou não interessa somente aos pesquisadores, pois o mais provável é que tal tecnologia tenha surgido em muitos e diferentes lugares, espalhando-se através de uma teia coletiva de mentes subconscientes, e não somente no norte do País de Gales... A cultura celta, de acordo com a maioria dos arqueólogos, originou-se na Europa Oriental, bem longe do norte do País de Gales. Seria então o celtismo a base do druidismo – o celtismo que é essencialmente a base da cultura da Europa da Idade do Ferro? Os druidas eram os sacerdotes da cultura celta. Mas quem eram os sacerdotes da Europa pré-Idade do Ferro? Para mim, eram também os druidas – os sacerdotes que orientavam seu povo em seu relacionamento com a terra. Trago nas veias sangue de diversas etnias européias, e a cultura de minha infância traz a influência de diversas etnias globais – minha alma, contudo, identifica-se com as belas colinas onde vivo, no coração da Inglaterra. Este é o coração de meu druidismo. Enquanto escrevo estas palavras, a luz do sol de verão brilha em meu jardim e uma bruma de fim de tarde paira no ar. As árvores vestem-se com seu verde vivo para o verão. Amanhã a previsão do tempo informa que os ventos do leste trarão um pouco do frio invernal, e o mundo a minha volta retornará por alguns instantes ao seu esconderijo invernal, aguardando pelo próximo dia quente de verão. Estas terras temperadas, em constante mudança, têm por essência a magia da transformação. O poder e a beleza dessa transformação é responsável pela linguagem, cores e formas de minhas práticas espirituais. Certamente todo o mundo está em permanente estado de transformação. Nem mesmo os desertos são sempre iguais – as areias se movem, a luz se transforma, a temperatura se eleva e cai. Contudo, a espiritualidade oriunda de uma paisagem em que as mudanças são radicais e perpétuas dá origem a uma religião nativa embasada nessa característica marcante. A sabedoria da transformação é, para mim, um dos mais sábios aspectos do druidismo. Trata-se de uma espiritualidade de mudanças que, como tal, nos ensina a conviver com as transformações – ensina-nos a nos entregarmos a essas mudanças, a avançar confiantemente rumo ao desconhecido, fortalecidos e abertos. Nossos ancestrais, conscientes da tradição espiritual ou simplesmente cientes dos ensinamentos da terra no interior de suas almas, deixaram suas terras natais e viajaram através da Europa e ao redor deste mundo, transformando-se ao longo do caminho e adaptando-se a cada nova situação. O mesmo fizeram nossos ancestrais europeus que partiram para novas terras – e hoje, as pessoas que buscam pela sabedoria dos avós de seus avós encontraram o Druidismo. A tradição ainda se espalha, e o grande rio ainda corre. Com o século XXI deslizando rapidamente sob nossos pés, o Druidismo é uma espiritualidade viva e cheia de energia nos Estados Unidos, na Austrália e em outros países cuja língua é o inglês. Tanto o idioma quanto o druidismo foi levado àquelas terras por aqueles que deixaram a Grã-Bretanha. O druidismo também pode ser encontrado por toda a Europa – de Portugal à Itália, da França à Bulgária. Existem druidas no Kwait, na África do Sul e no Japão. No Brasil, a comunidade druídica cresce de modo excepcionalmente rápido, formada por pessoas que encontraram no druidismo a profundidade e a consistência que não encontraram em outras espiritualidades. Muitos buscam pelas práticas espirituais de seus ancestrais, para que possam explorar sua descendência e suas lendas tradicionais. Para muitos, isto quer dizer mergulhar em suas origens na Grã-Bretanha, na Irlanda, na Itália, na França, enquanto que outros as buscam em Portugal, na Espanha, nas terras germânicas e assim por diante. Essas pessoas buscam pelas nascentes do belo rio do druidismo. Alguns o fazem como quem embarca numa aventura rumo ao desconhecido, incertos quando a sua verdadeira herança, mas certos de seu desejo de explorar. Cada pessoa anseia por beber da cristalina água de sua nascente. Por ser uma espiritualidade que reverencia as forças da natureza que nos rodeia e existe em nosso interior, nos ensina a nos equilibrarmos entre onde estamos e quem somos, em perfeita harmonia. Onde quer que estejamos, nós honramos a terra sob nossos pés e os céus acima de nós; onde quer que estejamos, honramos também a nossa ancestralidade – os que nos guiaram no passado para que sejamos o que somos hoje. Por ser uma espiritualidade de transformação, o druidismo nos ensina a adaptar e modificar a nós mesmos, para que aprendamos a preservar essa harmonia, tanto em nossos ambientes interior e exterior (a paisagem de nosso próprio corpo). De diversas formas os benefícios são evidentes. A chave é o que chamamos de existência sustentável. Nós honramos nossos ancestrais, a começar por nossos pais, reconhecendo nossos avós e bisavós, e os que vieram antes e antes ainda. Dessa forma, descobrimos uma cura que nos permite honrar nossos filhos por quem eles realmente são e pelas histórias que eles trazem em si – os genes, as forças e fraquezas que orientam seu comportamento. Por conta disso, nós também aprofundamos e fortalecemos nossos relacionamentos, para que eles nos nutram de modo mais pleno e para que sejam mais fáceis de manter – de sustentar. Nós cuidamos de nossos corpos não só para honrar nossos ancestrais – os que nos deram a vida – expressando nossa gratidão ao cuidar do dom que nos deram, mas também porque nossos corpos são uma expressão de nossa criatividade. Inspirados pela beleza do mundo à nossa volta, em suas marés de crescimento e decadência; e também inspirados pelas nossas marés internas, aprendemos a deixar fluir livremente a energia dessa inspiração através da criatividade de nossa alma: nossa poesia, arte, música, cura, dança, prosa, amor, paternidade e assim por diante – inclusive a saúde de nosso corpo físico. Seja qual for o nosso potencial, nós o buscamos para honrar aquilo que nos inspira. E com saúde, nossa vida fica mais fácil de manter – de sustentar. Nós também honramos a força da natureza que nos rodeia. Cada vez mais conscientes, nós interrompemos o comportamento padrão secular de apoiar a indústria e a agricultura destrutivas. Vivendo com responsabilidade ambiental, nós reduzimos o quanto e o que consumimos. Pensamos duas vezes antes de comprar algo, sabendo de onde vem e como foi produzido. Assim, por nossas ações, apoiamos uma sociedade sustentável, tanto local quanto globalmente. O druidismo é, portanto, uma espiritualidade que nos leva a encontrar as raízes de quem somos, através do respeito a todas as coisas que nos fazem ser quem somos. O druidismo também nos inspira a mudar e evoluir para aquilo que podemos vir a ser. Num mundo em constante transformação, temos nossas raízes reforçadas – raízes que nos trazem estabilidade e certeza em meio às mudanças, criando realidades suficientemente sólidas para que sejam sustentáveis. Onde quer que estejamos sobre esta bela e poderosa Terra, em doce equilíbrio entre o céu e a terra, entre o passado e o futuro, entre avô e neto, descobrimos o momento mágico do aqui e agora: a presença. Através do druidismo, nós voltamos ao local ao qual pertencemos. Nós voltamos para casa.


______________


Esses textos foram retirados do site http://www.heramagica.com.br. Quando for possível, visetem-o. Além de outros textos muito interessantes e profundos sobre Paganismo Celta e outras tradições espirituais, vocês irão encontrar várias coisas muito úteis, como a loja virtual Hera Mágica, matérias sobre bem-estar animal, etc.